sábado, 31 de dezembro de 2011

Feliz Ano Novo!

Nós do Vida Positiva desejamos um Ano Novo de grandes transformações. Que possamos ser mais justos com o nosso próximo e sempre que possível atender as  necessidades do menos afortunados. 
  

O amor é o dom supremo. (I Coríntios 13)

            Ainda que eu fale a língua dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei e ainda que  eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará.

O amor é paciente, é benigno, o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal, não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade, tudo sofre, tudo crê,tudo espera, tudo suporta.

O amor jamais acaba, mas, havendo profecias desaparecerão, havendo línguas, cessarão, havendo ciência, passará, porque, em parte, conhecemos e, em parte, profetizamos. Quando, porém, vier  o que é perfeito, então, o que é em parte será aniquilado. Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino, quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino.

Porque, agora, vemos como em espelho, obscuramente, então, veremos face a face. Agora, conheço em parte, então conhecerei como também sou conhecido. Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, porem o maior destes é o amor.

Um Feliz e Maravilhoso Ano Novo. Contamos com você em 2012!


terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Sem Saída

Vicky Tavares
Conheci o casal no Vida positiva, quando trouxeram as crianças. Eram quatro irmãos, um deles deficiente físico. Os dois viviam sempre brigando. Eram portadores do vírus HIV. Ele também era diabético, curtia todo tipo de droga, de bebida a crack, era muito agressivo e batia muito na mulher. Ela reclamava, mas não aguentava viver sem ele. Conheceu-o na cadeia e se apaixonou perdidamente.

Os infantes sofriam demais com as agressões sofridas pela mãe. Seu Madruga (assim vou chamá-lo pela grande semelhança com o comediante do seriado Chaves), era eletricista. Fazia bicos onde morava e ganhava um salário mínimo de beneficio. O dinheiro era para comprar  drogas.

A instituição ajudava em tudo para que as crianças não passassem fome. Estavam em regime de abrigamento, mas nos finais de semana iam para casa. Os filhos ficavam muito angustiados, não queriam ir. Agarravam-me pela saia pedindo para ficar. O pai não deixava. Deixei de ir as sexta-feiras à tarde para a Casa. A saída das crianças me cortava o coração. Todos queriam ficar. Algumas vezes conseguíamos que os pais deixassem, outras não.

Um dos meninos era muito apegado a mim. Entristecia-me muito vê-lo sair chorando. A mais velha uma menina de 10 anos na época, era muito adulta para a idade dela. Nestes anos de trabalho social descobri que crianças carentes são mais maduras. O deficiente era muito alegre, sempre cantava e tinha um recém nascido também, que por sinal era lindo!

Fui várias vezes levá-los na casa onde moravam. Eles não tinham higiene nenhuma. Seu Madruga  tomava o coquetel de vez em quando, usava e abusava da saúde. Compramos uma geladeira para eles para que armazenassem a insulina. Sempre o aconselhava a se cuidar. Chamava-me de mãe. Sentia a falta da mãe biológica. Contou-me toda a sua história. Ela havia morrido e deixado ele e o irmão sozinhos no mundo. Não conheceram o pai. Andaram por vários lugares, roubavam para não passar fome, depois passaram a roubar para comprar drogas. Estudaram muito pouco. O irmão morreu assassinado quando ele tinha 25 anos. Seu Madruga casou a primeira vez e teve um filho, que tinha o mesmo nome dele. Depois "encontrou a mulher de sua vida”, - dizia.

Algum tempo depois foi feita a reintegração familiar das crianças e lá se foram os quatro. Infelizmente não deu certo. Ele muito agressivo, por conta das drogas que misturava com os remédios, ficava totalmente descontrolado. Começou a  se insinuar para a filha. A mãe foi lá me contar, então aconselhei que fossem institucionalizados novamente. Pediu para ser a nossa, mas infelizmente não conseguiu mais. Eles me ligavam, choravam pediam para voltar, mas lamentavelmente nada pude fazer.

Um dia toca o telefone e quando atendi era a mãe, chorando muito me contou que o marido havia falecido. Convidou-me para o enterro. Sai na mesma hora e fui para o cemitério de Taguatinga. A família estava desolada, arrasada mesmo. O filho mais velho gritava no chão. Seu Madruga tinha sido assassinado a pedradas. Não pagou a droga que tinha comprado. Os traficantes não perdoaram.

Meses depois fiquei sabendo da morte do filho dele. Também foi assassinado. Mundo cão! Ela correu atrás do beneficio do marido. Comprou uma casa. Conseguiu os filhos de volta. Outro dia vieram me visitar. Contou-me que casou de novo, que não apanha mais e que agora é respeitada. Os filhos são criados do jeito deles. Ficam mais na rua do que em casa. É o retrato do  Brasil. Descaso de todos! 


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O Formando de 2011

Vicky Tavares
Tem nome de anjo, discreto, educado, muito carinhoso e reconhecido por todos como um doce de criatura. Tem mais dois irmãos menores que são cheios de energia. Dão muito trabalho para todos nós, mas interessante que o "carinho" faz parte da vida deles e são sempre muito amorosos.

Nosso anjinho tem 11 anos, sua mãe portadora do vírus HIIV decidiu morar na rua e ser usuária de crack. Triste escolha! Deixou os filhos com a avó. Depois de algum tempo a avó já não podia mais sustentar os filhos e muito menos os netos. Assim os três meninos foram abrigados. Todo final de semana a avó vinha buscá-los e eles ficavam muito alegres.

Passamos a ajudá-los em tudo! Alimentos, roupas e utensílios domésticos. A instituição tem este compromisso com as famílias das crianças e adolescentes e também com outras (lembrando sempre que tem que ter um portador do vírus HIV). A vovó não tinha condições financeiras de mantê-los, mas sempre foi muito carinhosa com eles. Tinha sempre a responsabilidade de trazê-los  aos domingos à noite ou na segunda-feira pela manhã, para que não faltassem ao colégio. Conversava sempre comigo sobre as lutas da vida. Um dia me disse: - “Estou com muita dificuldade de conseguir emprego, sou negra, pobre, analfabeta e estou envelhecendo, aqui no Brasil não tem vez para pessoas assim”. Verdade! Era uma pessoa sábia apesar de todas essas mazelas.

Dei boas risadas com ela, porém um dia sumiu. preocupada liguei para os filhos mais velhos. Fui informada que estava presa porque foi pega com uma lata de merla. Nossa a vovó tinha aprontado. Eles ficaram desolados. Muito tristes mesmo! Os menores passaram a dar muito mais trabalho.

Nosso anjinho não falava nada e só observava. Muitas vezes o vi parado na janela da casa olhando para fora pensativo. Nunca perguntei nada. Sempre respeitei o seu silêncio! Sempre muito calmo, sem falar nada, ele sempre aguentou suas dores com muita dignidade. Isto faz parte do seu temperamento!

Tempos depois apareceu a vovó para a alegria dos netinhos. Então tudo voltou ao normal. Nunca questionei a ela sobre a situação. Não falou e nem eu achei necessário a expor questionando seus atos. Sempre tivemos um grande respeito uma pela outra. É preciso entender as pessoas e aceitá-las como são.

Alguns anos se passaram. Houve várias tentativas de reintegração familiar, mas sempre esbarramos com as condições precárias da família. Ano passado a vovó sumiu de novo, liguei para seus filhos e infelizmente tive a pior de todas as notícias. Ela aderiu ao crack e tinha saído de casa para virar moradora de rua. Foi com grande tristeza que recebi esta notícia.

Muito preocupada fui com a assistente social da instituição fazer uma visita na residência deles. Fomos ver como estava o resto da família. Os rapazes (filhos maiores) estavam empregados. Muito tristes nos relataram o que aconteceu com a mãe. A família estava completamente desestruturada. Eis que de repente a vovó aparece, magra, envelhecida, acabada mesmo! Com aquele cobertor que os moradores de rua usam. Sem higiene nenhuma, descalça, descabelada, olhos bem fundos, uma verdadeira dependente desta maldita droga. Conversei muito com ela, pedi que se internasse para se tratar e disse que todos precisavam dela, pois ela era o alicerce da família. Oramos juntas. Ela prometeu  cuidar-se, mas infelizmente não cumpriu. Voltou para as ruas e está lá até hoje.

Eles estão conosco. De vez em quando recebem a visita de um dos tios. Nas férias de meio do ano ficaram uns dias com o resto da família, mas logo voltaram. Como os tios trabalham fiquei receosa de que não estivessem bem cuidados, mas nosso anjinho é muito família, ele tem responsabilidade com todos. Sempre liga para saber como estão e pergunta de um por um. Isto é o que mais me apaixona nele: A importância que dá a família. Mesmo sabendo que estão afastados, ele faz de tudo para manter o vínculo.

 No dia de seu aniversário fizemos uma linda festinha para ele e convidamos todos seus amigos e familiares. Foi muito triste vê-lo tão esperançoso pela visita deles. A cada chegada de um convidado seus olhinhos negros pulavam, corria para a porta e infelizmente a família não chegou. Uma grande tristeza invadiu meu coração e o dele. Só sai do Vida positiva depois que o coloquei para dormir.

Ontem foi sua formatura do 5ª Ano, convidamos Samia e Sérgio, casal que o admira muito! Michelle cuidou da produção da roupa, estava de terno preto, camisa branca, sapato e meias pretas, lenço de bolso e gravata verde abacate. Estava um gato! Sua professora quando o viu disse: -“Você está lindo”. Verdade estava mesmo, era o mais bem arrumado da festa. Estava chique.

Quando chamaram seu nome atravessou a pista todo orgulhoso. Um lorde! Com altivez deu um sorriso para nós, cúmplices do seu sucesso! Estava feliz. Á noite me chamou para mostrar que colocou o diploma na porta do guarda-roupa. Com um sorriso (lindo) me abraçou, deu um beijo e disse obrigada vovó Vicky! De nada meu amor!



terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Um Milagre de Adoção

Vicky Tavares
Eram moradores de rua, o pai, a mãe e eles. Os pais dependentes químicos de merla, crack, e thinner. O casal tinha HIV e não se tratava. Um dia a ficha da mãe caiu e ela preferiu procurar um lugar para que cuidassem dos filhos, não aguentava mais  vê-los sofrer. O pai não concordou muito com a ida deles para a instituição, mas aceitou com a condição de pegá-los todo final de semana.

Um era saudável o outro tinha cirrose, não se sabe como ele adquiriu, diziam até que eles davam bebida para as crianças. Chegaram com poucos meses de nascidos. Subnutridos, sujos e mal cuidados. Não foi muito difícil a adaptação deles. Logo se familiarizaram com a casa.

No Vida Positiva de Taguatinga, tínhamos um quarto grande só para os bebes. Lá eles foram bem recebidos e não reclamavam de nada. Dormiam no horário certo, tomavam banho e mamavam. Estavam felizes e sem o frio das ruas. Aquecidos com mantas e com muito carinho por parte de todos. Eles foram crescendo. Que alegria foi ver os primeiros passinhos, as primeiras palavras e a alegria deles.

Os pais tinham sumido. Um belo dia voltaram e começaram a exigir que eles passassem o final de semana juntos. Preocupada, não deixei. O pai nervoso começou a me fazer uma série de ameaças. Resolvi atender o seu pedido. Permiti mesmo contrariada. Iam na sexta-feira à noite e voltavam no domingo. Passei a observar que quando voltavam vinham mais morenos, queimados do sol.

Não demorou muito fiquei sabendo que os pais levavam os meninos para o semáforo. O que tinha cirrose tinha a barriga muito grande, o pai levantava a camisa dele e contava sobre a doença pedindo esmolas. As pessoas compadecidas davam dinheiro e eles compravam as drogas. Fiz imediatamente um relatório comunicando o fato e assim o Juiz suspendeu as saídas de final de semana e também as visitas. Infelizmente os pais ficaram sabendo.

Era próximo do Natal, o portão da casa estava aberto. Tomei um grande susto quando vi João com um revolver na mão colocando na minha testa. Foram momentos de tensão e desespero. Chorava, berrava e dizia que ia levar os filhos na marra. Foi então que Deus me deu o discernimento de conversar com ele, de explicar que  a instituição era melhor para eles. Falei também do amor. Que o verdadeiro amor renúncia para a felicidade do outro. E foi assim que depois de algumas horas ele foi se acalmando. Chorou muito e nunca mais voltou. Meses depois fiquei sabendo de sua morte.

            As crianças foram colocadas para adoção. Logo apareceu um casal. Na sua primeira visita percebi que era uma adoção abençoada por Deus, um era a cara do homem  e o outro da mulher. Pareciam que se conheciam já de muito tempo. As conversas fluíam naturalmente e eles se identificaram com o casal com muita naturalidade. Começou então o estágio de convivência. Os olhinhos brilhavam quando o casal, que já tinham uma filha, os buscavam. Confesso que às vezes ficava com ciúmes, mas os pais adotivos também me davam muito carinho, amor e compreendiam a minha situação. Todos nós nos entendíamos.

Chegou então o dia da partida, também estávamos na época de Natal. Tínhamos na sala uma linda árvore, imensa e cheia de “balagadans” natalinos. Os dois corriam felizes ao redor dela, aguardando a chegada dos pais. Eu também estava feliz. Senti a falta deles na ceia de Natal, mas eles estavam para sempre dentro do meu coração. Isso é o que  importava.

O casal sempre os trazem para nos visitar. Eles estão lindos, bem cuidados. O milagre  aconteceu! O que tinha cirrose estava na fila de espera para o transplante, mas com o tratamento superou o problema e não precisará mais operar. Mas se precisasse já tinha uma doadora do pedaço de fígado. A mãe adotiva era compatível. Quem disse que não existem milagres?

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Um Lugar Reservado no Céu

Vicky Tavares
Foi à mãe que o levou para a Instituição para que ele tivesse um atendimento melhor. Sua carga viral era alta e precisava de tratamento adequado, tomar remédios em horário britânico e ter uma alimentação balanceada. Ela ouviu falar da Vida Positiva e trouxe o menino que na ocasião tinha sete anos.

Tímido, pouco falava. Trazia-o bem cedinho e pegava já no final do dia, depois de alimentado e devidamente medicado. A família veio do Maranhão. Ela havia se casado novamente. O casal também tinha o vírus HIV. Moisés (assim vou chamá-lo), não teve dificuldades em se adaptar. Logo ganhou peso e já começava a ficar sorridente. Estudioso, fazia os deveres sem precisar mandar.

Moravam em Val Paraíso. Naquela época o Vida Positiva estava em Taguatinga. Nos primeiros meses ficou fácil porque ainda não tinha começado a chover. Depois, começou a ficar difícil trazer Moisés. Então aconselhei a mãe a ir aos órgãos legais e pedir autorização para o acolhimento. Foi feita a solicitação, mas infelizmente por questões burocráticas o processo demorou demais.

Ela foi cansando da luta diária e um dia me procurou para dizer que não aguentava mais. Era longe, além de que a mãe também andava bastante debilitada por conta do Vírus. Fiquei muito triste e Moisés também. Ficamos abraçados durante muito tempo chorando, até que ele saiu da casa soluçando. Liguei várias vezes para o celular dela (o único contato que tínhamos), mas não conseguia falar com eles.

Passado dois meses ela e o marido me visitaram, me informando que iriam morar no Maranhão, já que não conseguiam o acolhimento da criança. Perguntei pelo menino e ela me informou que estava bem. Pedi um telefone para falar com Moisés, eles disseram que não tinham. Pedi que ele me ligasse porque estávamos com saudades. Quando saíram comentei com a funcionária ao meu lado: “Que pena, aqui ele estava tão bem. Sinto muito em vê-lo partir”.

Alguns meses se passaram, recebi um telefonema da Polícia para que eu comparecesse para  depor sobre Moisés. Muito assustada corri para a DCA - Delegacia da Criança e do Adolescente. O agente então começou a me fazer perguntas: Quanto tempo ele ficou na instituição? Por que saiu? Em que época ficou lá? Entre aquele monte de papéis, a solicitação de acolhimento era um deles.

Expliquei tudo o que aconteceu que infelizmente ele não havia sido acolhido. Até que recebi uma das piores notícias da minha vida, fiquei chocada com o que ouvi do policial. A mãe e o padrasto haviam matado Moisés a pauladas e jogado o corpo da criança em um poço. Os vizinhos sentindo o mau cheiro chamaram a polícia.

Os pais confessaram o crime. Na tarde que ela nos visitou já tinha cometido este ato horroroso. Foi um dos piores dias que tive. Saí da Polícia, em estado de choque. Entrei no carro em prantos. Como pode? O que leva uma mãe a fazer isso? Não estou aqui neste mundo para julgar ninguém, mas durante muito tempo  fiquei revoltada.

Há poucos dias, arrumando a pasta de certidões de nascimento vi a cópia da dele. Abracei-me a ela e chorei de soluçar. Quando levantei a cabeça, olhei para o céu, e pensando nele  tive a sensação de ver um anjo passando.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

Ensina-me a Viver

Vicky Tavares
São dois irmãos, ambos portadores do vírus HIV. Infelizmente quando a mãe descobriu que tinha o vírus e as crianças também, já era tarde demais. Uma das crianças já tinha perdido a visão, a fala e já não andava. Graças a Deus o outro não!

Vou chamá-los de Pedro e Paulo. Paulo é muito inteligente, apesar de seu desenvolvimento físico ser lento, ele é ágil e muito capaz. É apaixonado pelo irmão, cuida dele com muito carinho. Quando os conheci percebi que ninguém dava atenção para o Paulo, por causa das dificuldades de Pedro, por ele inspirar tantos cuidados as pessoas se voltam sempre só para ele.

E aqueles olhinhos negros do irmão ficavam sempre tristes. Sabendo disso passei a me dedicar mais a Paulo. Somos grandes amigos, sempre me escreve cartas de amor e adora estar ao meu lado. Na instituição está sempre feliz. Lá é tratado com respeito e dignidade. Pedro é um eterno apaixonado e adora música. O único sentido que tem é a audição e a explora demais com o radinho no ouvido, pula e dança o tempo todo, ah... adora cantar parabéns para você! É muito meigo e entende muita coisa.

Sua mãe é uma pessoa muito triste, carrega a dor de ver seu filho com tantas limitações e deve se culpar. Pelo menos passa isto para quem a conhece. É jovem ainda, casou de novo e o atual marido é um bom pai para os meninos. É uma família tranqüila que luta pela sobrevivência. Sem dependências químicas, graças a Deus! 

Estão conosco em regime sócio educativo, não são abrigados. Alguns finais de semana dormem na instituição. Pedro e Paulo adoram ficar ali com os amiguinhos. Quando o pai chega à porta da instituição o Pedro já começa a pular e a gritar todo feliz! Impressionante o amor que todos da casa têm por ele. Os cuidados, a proteção e toda a atenção quando ele chega.

As crianças são muito unidas. Lembro-me quando eram menores e brigavam, eu chamava e fazia com que todos se abraçassem. Perdão é a palavra chave no Vida Positiva. Pedro nos preocupa, nos últimos meses tem tido convulsões. Por não gosta de adoecer fica irritado.

Percebo o quanto ele gosta de viver e se alegra com a vida, sente vontade de ficar aqui nesta vida. Isso me faz pensar que tantas pessoas perfeitas, com condições físicas e mentais excelentes, por qualquer coisa querem desistir. Com certeza nosso Pedro daria a vida para estar no lugar delas. Não gosta da cadeira de rodas e quer andar. Como não consegue, engatinha pela casa toda. É um guerreiro que luta para vencer suas limitações. Agarra-se com todas as forças no futuro, esperando por dias melhores. É amigo da esperança. Vencer obstáculos é com ele mesmo. Quando olho para o menino de corpo deformado e de espírito gigante, agradeço a Deus e ao Mestre Pedro por me ensinar a viver!


terça-feira, 15 de novembro de 2011

Um Anjo Amigo

Vicky Tavares
A pedidos dos netos e amigos vou contar como começou minha relação com o HIV. Na década de 80 a AIDS estava no auge. Ainda não havia remédios (coquetel) e milhares de pessoas morriam com doenças oportunistas do vírus. O mundo em estado de choque assistia umas das piores epidemias do século.

Naquela época diziam que era a doença dos homossexuais. Assisti o descaso da sociedade com essas pessoas, muitas vezes abandonados pela família morriam sozinhos em seus leitos de hospitais.

Em uma tarde ensolarada fui ao salão cortar meu cabelo. Lá me informaram que estavam tentando falar comigo para avisar que meu cabeleireiro estava doente e não poderia me atender. No dia seguinte liguei para marcar outro horário, mas disseram que  ele continuava mal. Depois de uma semana de tentativas em vão, resolvi procurá-lo em sua casa, foi assim que descobri que meu amigo havia contraído o vírus HIV. Estava abatido e abalado, queria reagir, mas faltavam forças, estava envergonhado e humilhado.

Todos o desprezavam, sofria com o vírus e com o preconceito horroroso. Passei a visitá-lo frequentemente. Não tinha mais amigos. Aquele homem famoso, que curtia as pontes aéreas mais importantes para fazer a cabeça das mulheres mais badaladas do Brasil, estava só! Sem ninguém. Foi então que a família se aproximou. Uma irmã maravilhosa largou tudo para cuidar dele. A mãe morava em outra cidade. Ele não queria sair de Brasília, ainda acreditava que tinha amigos. Ás vezes me pedia para ligar para as clientes, elas davam desculpas para não atendê-lo, eu ficava numa situação constrangedora e sempre inventava alguma coisa para não magoá-lo.

Ele começou a definhar, as escaras começaram a aparecer e a cada dia estava mais debilitado. A irmã e eu resolvemos que seria melhor mandá-lo para junto da mãe. Um dia me ligou que queria vir a Brasília. Hospedei-o em minha casa. Todos ficaram perplexos, amigos e parentes me chamavam de louca. Imagine hospedar um portador do vírus em casa, com a família! Para todos era um absurdo! O recebi com  muita alegria. Estava com saudades.

Neste mesmo dia soubemos da morte de um amigo com AIDS. Fomos ao enterro, observei que meu amigo ficou por muitas horas olhando para o nada. À noite o convidei para ir a igreja comigo. Quando o Pastor convidou os presentes para aceitar Jesus, orgulhosa o vi  levantando a mão e indo até ao altar receber o Espírito Santo de Deus. Voltamos para casa. Meu coração estava aliviado. E vi que ele estava em paz. Voltou para sua mãe. Dias depois me ligou, já não conseguia falar direito, as feridas estavam por toda a parte do corpo, inclusive na garganta.

Estou escrevendo nesta tarde chuvosa de novembro, vendo a água cair pelas janelas e me lembrando do seu sorriso, do amor que eu tinha por ele e ele por mim. Para mim foi uma honra tê-lo como amigo. Dividimos copos, talheres, pratos, abraços e beijos, quando todos temiam fazê-lo.

Dias depois recebi a  notícia do seu falecimento. Ali naquele momento tinha a certeza no meu coração  que iria lutar para combater o preconceito/AIDS. Depois disso acompanhei os últimos momentos de vários portadores em hospitais de Brasília. Estas pessoas só queriam segurar nas mãos de alguém, ganhar um abraço e um beijo antes de partirem. Só isso! Tão pouco...

Agradeço a Deus e ao meu anjo amigo pela oportunidade de servir ao meu próximo, com o amor que Cristo nos ensinou. Anos depois Deus me fez um chamado, trabalhar com crianças e adolescentes portadores do vírus HIV.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Laços de Família

Vicky Tavares
O Conselho Tutelar os encaminhou para uma instituição religiosa perto da cidade deles, mas lá não sabiam como cuidar do HIV. Foi então, que a médica infectologista  indicou o Vida Positiva. Fui com a Assistente Social  buscá-los. A menina tinha HIV, o menino mais velho não e o recém nascido, ainda não sabíamos. Ela já veio com febre, foram duas semanas muito difíceis. Ela tossia demais, o irmão mais velho não parava de chorar (berrando mesmo) e o bebê dando trabalho comum de um recém nascido.

Aqui vamos usar o nome fictício de Luana para a menina, era uma bonequinha, branquinha, cabelos negros bem lisos, narizinho arrebitado e bem manhosa. Os dois irmãos eram muito lindos, um mulato e outro negro.

Imaginei que eram filhos de pais diferentes. Logo que chegou ela teve de ser internada com pneumonia (doença oportunista do HIV) e ficou muito fraca. Foi uma recuperação árdua. E o pior de tudo isso, é que as crianças estavam bastante sofridas e apavoradas com tudo e com todos, pois antes de virem para a instituição tinham sidos encontrados ao lado da mãe dias após sua morte por overdose. Foram os vizinhos que sentiram o mau cheiro e chamaram o Conselho Tutelar.

Muita dor e abandono. A adaptação deles na instituição foi complicada. O mais velho tornou-se agressivo, não gostava dos funcionários e só se acalmava comigo. Tivemos que  deixá-lo morar com a avó. Os dois irmãos ficaram. Sempre que faço feijoada, lembro dele pedindo os pedaços de bacon. Adorava tênis bem grande, que davam dois dos pés dele. Tinha o sorriso muito maroto. Deixou saudades.

Fizemos os exames no menor até um ano  e meio. Graças à Deus negativou. Luana recebendo o tratamento adequado começou a se recuperar. Na escola era uma excelente aluna, valia à pena ver seus cadernos. Teve catapora e tivemos que interná-la, ficou no isolamento por alguns dias. Sempre fui presente nestas internações, sei que ninguém substitui a mãe, mas o amor é fundamental para a recuperação de qualquer enfermidade. Ela logo ficou boa. Mais uma vitória! Foram 5 anos de convivência com estas duas pessoinhas maravilhosas.

Ele todo dia que chegava da escola ficava pelo menos uma meia hora tomando banho de sol e pensando. Eu sempre o observava, mas nunca perguntei o que tanto  pensava. Depois se levantava e ia almoçar. Muito inteligente sabia manusear o computador como ninguém. Com 5 anos encarava a vida com realidade.

Ela cada dia mais vaidosa não tinha mais feridas no corpo e crescia cada vez mais bonita. Um dia, um telefonema com um comunicado: “Estavam indo para adoção”. Um casal estava interessado. Foi tudo tão rápido. Ela teve dificuldades em aceitar aquela nova situação. Ele não, todo animado curtia o casal como se já conhecesse ha muito tempo. Dentro de mim uma confusão de sentimentos. Por um lado estava feliz por outro infeliz.

Um mês depois daquele dia eles foram embora. Era o aniversário de Luana e eu não quis assistir a saída deles. Fiquei em casa chorando. Sabia que seria bom para eles encontrarem uma família, mas era parte da minha que estava indo embora. Sei que deveria encarar este trabalho de outra forma. Mas uma onda de amor tomou conta do meu coração e eu os vejo como filhos, netos, enfim minha família! Perto do Natal do ano passado, vi uma mensagem deixada por eles no antigo site da instituição- Vóvo Vicky nós te amamos!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Preconceito, doença da alma

Vicky Tavares
Infectado com HIV por transmissão vertical (mãe para filho), chegou ao abrigo muito pequeno e com muitas dores no ouvido. Em sua casa dormia em chão batido e sem cama e sem colchão. A friagem causou uma otite aguda e crônica. Por muito tempo tratamos do ouvido, mas infelizmente vai ter que operar porque perfurou os tímpanos. Já está com uma significativa perda de audição. Fizemos os exames e estamos aguardando pela cirurgia.

Veio acompanhado do irmão mais velho, que o orienta e protege. Seu irmão é corredor de rua, já ganhou várias medalhas e está na lista dos corredores de elite. O irmão é um jovem tranquilo que não me dá trabalho, tímido e bastante reservado, ao contrário dele que é super alegre e brincalhão.

Ele adora desenhar plantas de residências, sente falta da mãe já falecida, tanto é que sempre está arrumando uma mulher para chamar de mãe. Um dia desses nos assustou, teve que ser internado com uma crise de apendicite e operar. No hospital era todo sorrisos. Sempre está de bem com a vida! 

O pai também portador tem a saúde bastante debilitada, um homem de 1.86m que já chegou a pesar 35 kg. Visita sempre os filhos. Existe muito afeto entre eles.

Vivemos várias situações constrangedoras. Uma delas foi quando fazia tratamento com uma psicóloga. Fomos chamados  com urgência. Quando lá chegamos encontramos ele sentado, com a mão direita coberta por um saco plástico. A psicóloga pedia que  o retirássemos imediatamente porque estava com o dedo machucado. Era apenas uma bolinha de sangue pisado... Ficamos perplexos com a atitude dela! Lógico que ele nunca mais voltou naquele lugar. Ficou muito triste, e várias vezes o vi chorando. Conversei bastante com ele e expliquei que essas pessoas são doentes, mais doentes que qualquer outro.

Sempre foi tratado com discriminação, o preconceito o persegue. Seus dentes eram desalinhados, orelha grande e um barrigão que chamava atenção. Hoje usa aparelho para corrigir os dentes, faz musculação, e o barrigão, virou um tanquinho.

Uma vez quando brincava com uma colega de classe o pai da jovem viu e começou a bater nele, pedindo que nunca mais brincasse com a filha dele! Fui chamada na escola, saí de lá chorando, revoltada. Viemos abraçados sem dar uma palavra. Resolvi denunciar, mas quando estava saindo da instituição ele me chamou e disse- Vó Vicky, não faça isso! Deixa pra lá. Já orei por ele e Deus colocou no meu coração o perdão.

Acompanho seu crescimento com grande alegria, está bastante desenvolvido, não só fisicamente, mas com uma alma grande, muito grande!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Dupla Sertaneja

Vicky Tavares

Tinham os nomes de uma famosa dupla sertaneja! Um tinha HIV e o outro não. Estavam conosco em regime de creche, hoje regime sócio educativo. Léo e a mãe viviam debilitados. Eram bem frágeis. Ele gostava de estudar e sonhava em ser bombeiro. O irmão tinha um desenvolvimento físico excelente, mas já não ligava para os estudos e queria mesmo era brincar.

As internações de Léo eram constantes e minhas brigas com a mãe dele também. Ele não gostava de tomar os remédios e ela com dó não dava. Também não aceitava colocá-los em regime de abrigo, alegava que não podia ficar longe dos filhos. Eu tentava entender a situação, mas muito me preocupava porque ele saia de uma pneumonia e entrava em outra.

 Mesmo eu reclamando por conta da toxoplasmose, ela insistia em manter bichos perto das crianças. Moravam em um quarto que a Instituição alugou para ajudá-los. Tinham tartarugas, gato, cachorro e periquito. Léo e o irmão se davam muito bem, brigavam pouco. Ele adorava ganhar brinquedos de bombeiro. Começou a fazer curso de escoteiro, mas o sonho mesmo era de ser um grande bombeiro, me dizia que queria salvar vidas! 

Sua voz  era bem rouca. Tinha cabelos lisos, olhos negros bem expressivos e uma barriga muito, mas muito grande mesmo! Alimentava-se bem, gostava de ir à igreja e sempre nos encontrávamos nos finais de semana. Visitava-me em casa, no meu trabalho e adorava quando eu o levava para lanchar ou almoçar fora. Gostava dos meus carinhos, mas ele era bem distante. Sempre triste, só sorria quando via minha neta e logo se apaixonou por ela! Um dia me disse que ia se formar e entrar no Corpo de Bombeiros para casar com ela.

A mãe ficou alguns dias sem levá-los em na nossa casa, quando apareceu ele já não andava mais. Chamei mais uma vez  a atenção da mãe com relação aos remédios, mas ela não entendia e ficava com raiva de mim. Nesse dia eu sabia que Léo não resistiria. Ela não os levou mais na instituição.

Dois meses depois recebi um telefonema me avisando que ele estava muito mal. Fui visitá-lo e fiquei impressionada, ele estava só pele e osso. Olhar distante, não conseguia falar. Senti carinho no olhar dele para mim. Beijei seu rostinho e saí de lá muito triste com aquela situação. Dias depois a notícia que ele havia falecido! Fui com algumas crianças da casa ao enterro. Chorei muito ao ver aquela criança tão franzina, naquele caixão.

Todos os sonhos tinham acabado. Léo subiu por outra escada, não mais aquelas que vinham nos caminhões de bombeiros que ele tanto gostava de brincar. Estava subindo para encontrar-se com Deus. Salvou muitas vidas com o seu testemunho, principalmente a minha! 

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

O Amor tem que ser Incondicional!

Vicky Tavares

Assim ele chegou à instituição, bem marrentinho! Era magrinho, pequenininho, maltratado pelo vírus e pela vida. Muito inteligente e super talentoso! Começaram as programações culturais e ele foi um dos primeiros a se interessar. Em tudo que participava era o melhor: Dança, pintura, desenho, música e em tudo se sobressaía.

Duas tuberculoses e várias pneumonias fizeram dele um garoto frágil. Era de família de classe média. A mãe portadora do vírus HIV tornou-se dependente química de crack. Vergonha para todos, se separou do marido e agarrou o menino franzino pelos braços e foi morar na rua. Roubava para manter o vício. Ele me contou das andanças com a mãe, que um dia veio a falecer, deixando-o na companhia de uma tia.

Foi a tia que o levou para a instituição. Ficou difícil mantê-lo em sua companhia, pois o marido dela adoeceu e aí para cuidar do sobrinho era muita responsabilidade com remédios, consultas, etc... Foi assim que Deus me concedeu a oportunidade de conviver com o Dan, de aprender sobre sobrevivência. Com ele tive várias lições de vida. Ele vive conflitos como todo adolescente, mas olha para a vida com bons olhos.

É tímido. Tem medo do amor e de ser rejeitado! É discreto e tem bom gosto. Sabe contar histórias como ninguém, adoramos ouvi-las! Está trabalhando como desenhista. Tem um futuro pela frente! Fez agora 18  anos. Ensaiou sair da Instituição, mas adoeceu e repensou. Confia no Vida Positiva, nos nossos cuidados. Sabe que sabemos guerrear contra o vírus. Tem certeza do nosso amor e nós temos do dele. Um dia me perguntou - Porque você nos ama se todos têm preconceito? Ensinei que o amor tem que ser incondicional! 

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Amor Ágape

Vicky Tavares
A menina da crônica é uma pessoa muito especial para mim! Quando a conheci ela estava muito debilitada, sua aparência era a pior possível. Pesava 9 kg e tinha nove anos. Fiquei muito assustada porque ela era bastante frágil. Sua pele era toda manchada, haviam muitas feridas externas e internas. Era muito fechada, não sorria, não conversava e as perguntas que eu fazia ficavam sempre no ar. Não queria viver, absolutamente não queria!

Eu estava fazendo um trabalho voluntário em uma instituição de crianças com HIV quando ouvi falar nela. Ela tinha saído da mesma porque  a situação estava grave. Enfim, ninguém mais queria cuidar. Fui com a assistente social da casa visitá-la na residência da  avó materna. Fiquei chocada com o descaso da família. A avó estava cheia de mágoas. Já havia perdido a filha (mãe da menina) e não queria saber de mais nada. A criança tinha um quarto escuro com uma esponja no chão para deitar. Isolada de tudo e de todos. Ali esperava a morte, que a sondava de dia e de noite com doenças oportunistas.

Os olhos grandes nem se voltaram para nós, estava de cabeça baixa e assim ficou durante nossa reunião. Dia seguinte fui buscá-la contra a sua vontade. Lançava olhares de ódio sobre mim. Mas, veio. Mal comia, mal bebia. Assim começou nosso relacionamento. Ela me odiando e eu aprendendo a amá-la. Amar os que nos odeiam, exercício de crescimento! Na instituição dei ordens para fazer comidinhas especiais para ela, mas ela não estava nem aí. A cada dia que passava me odiava mais e eu amava mais aquela garotinha que estava me ensinando coisas que eu desconhecia do amor. Amor ágape foi este amor que ela me ensinou e o qual eu serei grata a ela pelo resto da minha vida. Comecei a comer no prato que ela comia, beber no copo que ela bebia e passei a observar que isto me aproximava dela.

Em todas as internações fiz questão de estar presente. Comprei um celular para ela, para que nós duas pudéssemos nos comunicar. Então, ela começou a falar comigo! Como fiquei feliz no dia que ela me ligou do hospital e disse, “Vó Vicky, traz pão de queijo para mim!”. Á partir deste dia nossa relação começou a mudar. Ela começou a sorrir e passou a confiar em mim. Começou a melhorar. As doenças oportunistas deram uma trégua.

Um dia estávamos na sala da instituição quando ela chegou ardendo em febre, bastante debilitada (O HIV tem dessas, de repente ele permite que as doenças oportunistas, tipo pneumonia, entrem com uma força descomunal, a ponto de derrubar a pessoa em minutos). Fiquei apavorada e imediatamente liguei para o infectologista dela, Dra. Tereza, e comuniquei o acontecido. Imediatamente ela mandou interná-la. Foi a pior crise dela. A médica me comunicou  que havia a possibilidade dela ter que perder um pulmão. Foi um dos piores dias de minha vida. Estava no escritório e assim que tive a notícia me ajoelhei e disse para Deus, “Senhor troca a minha vida pela dela. Já vivi muito e ela está começando agora. Por favor, meu Deus não permita que ela morra!”. Na minha cabeça só passava o pavor. Imaginem uma menina tão debilitada portadora do vírus só com um pulmão. Mínimas seriam as chances de sobrevivência. Chorei muito diante de Deus pedindo um socorro. E como sempre Ele respondeu. Pela manhã a médica me ligou dizendo que fizeram a radiografia antes de operarem e o pulmão que estava todo comprometido estava limpinho! Depois dessa internação não houve outras.

Ela passou a se alimentar muito bem, a tomar seus remedinhos com precisão, a estudar e a se maquiar. Ah! Como ficou vaidosa, a ter vontade de viver, de me amar e de amar outros também. Está com 18 anos agora. Não conseguimos nos separar. Já não tem mais idade para ficar na instituição, mas está lá como colaboradora. Estamos unidas pelo resto de nossas vidas, pelo amor, que é um dom sublime!